“Eu vivo arquitetura, mas isto não me define”, imediatamente, escutando esta frase em aula, encontrei a motivação que precisava para discorrer e refletir sobre este assunto: a relação existente entre nós e a arquitetura. O quanto a arquitetura nos constitui, o que ela fala sobre nós e o quanto falamos sobre ela.

A princípio, voltarei este texto à arquitetura e ao design de interiores. Vamos começar lá do começo…

O Início

Quando temos nossa casa, acima de tudo, queremos tudo no seu lugar, funcionando, bonito, esse é um desejo comum, um fetiche, segundo Karl Marx. O tempo fez com que nos alienássemos pelo valor bruto da coisa e fossemos seduzidos por elas. Nesse sentido, atribuímos a elas valores que não são de uso e sim de status. Status aqui não me refiro às classes sociais, apenas à diferenciação entre pessoas, sem crítica a isto, pois o que faz a máquina girar é o consumo, a troca. A troca está na base de nossa sociedade capitalista.

Contudo, nestas trocas nos relacionamos automaticamente com as mercadorias e vice-versa, não somente por seu valor monetário, porque as relações de troca são extremamente mais complexas. Como, por exemplo, a de subsistência, as trocas de itens de prestígio, as trocas motivadas pelo status, pelo poder, pela inveja, cobiça ou pelo avanço social.

Sobre a Arquitetura

Do mesmo modo, na arquitetura não é diferente, partilhamos técnicas, estéticas, sonhos e sensações. A arquitetura fala de nós. Nos relacionamos com o projeto do ambiente, queremos que ele nos atenda em nossos hábitos, nossos valores, nossos costumes, nosso conhecimento e, desta forma, somos percebidos pelos outros, muitas vezes inspirando ou sendo criticados.

Em outras palavras, quando fazemos circular nossos aspectos simbólicos e imaginários, como nossos gostos e imagem, evidenciamos relações sociais, que são mediadas pela materialidade das coisas.

A nossa casa “significa, testemunha e materializa a construção de histórias, identidades, culturas, épocas e formas de viver”.

Ou seja, nossos hábitos, gostos e gestos falam sobre nós. Existe uma linguagem mediada pelo objeto chamado “eu” que compõe a nossa casa. O “eu” e a casa se comunica, e a linguagem é reconhecida pela sociedade, o que acaba promovendo as trocas de artefatos, de ideias.

Sendo assim, quando olhamos a casa de alguém observamos, com gentileza, do que esta pessoa é feita, ou seja, como ela opera, como se expressa e como se coloca na sociedade. Desta forma, os objetos dispostos, as cores, os cheiros não estão para nos servir. Estão para nos constituir. Eles se fundem ao que somos, ao “eu” e o conjunto de coisas que se transformam em nossa realidade.

Comentando, superficialmente, e citando como exemplo o que nos diz Daniel Miller (2013) sobre a vestimenta: “a roupa fala do raso e do profundo, a roupa atua na constituição da experiência particular do eu, na determinação do que é o “eu” e de como o “eu” quer ser visto como mercadoria que participa da sociedade e consequentemente do seu sistema de troca”. Segundo Mccracken (2003) a indumentária, como código conservador, funciona como um mecanismo de comunicação, pois informa categorias sociais, vínculos, distanciamentos, culturas e costumes, assim o é com a arquitetura e design de interiores.

O sistema de objetos constitui a subjetividade do sujeito, pois somos um compósito de experimentos, sentimentos, somos feitos de fragmentos de história, de eventos e de coisas. Portanto, somos um produto do tempo, da tecnologia, dos valores, da educação, do ambiente, das crenças e costumes e isto levamos para dentro de nossos lares, muitas e muitas vezes alienados quanto a este fato.

Nós nos relacionamos com as coisas que temos e adquirimos. Somos, então, o resultado de uma relação de troca.

A relação mútua entre o objeto e a pessoa, forma o que chamamos do “eu”, um ser que experimenta e se performa constantemente através de relações de troca com o ambiente, com as coisas, com a sociedade.

O Ambiente Construído

Acima de tudo, o ambiente construído se comunica, pois, os artefatos funcionam como mediadores de relações sociais. Eles não são neutros, carregam consigo uma mensagem social, um significado, indicam um sistema social, uma classe, um comportamento, um ideal de vida. Os objetos estabelecem, ou sugerem, uma associação entre consumo e corpo, pessoa e personalidade. O indivíduo usa a arquitetura de interiores para dizer algo de si mesmo, seja para se colocar no mundo ou para que se sinta parte daquele sistema social ou então, que seja para a manutenção de si mesmo enquanto ser socializado, alcançando e conservando seu poder e privilégio (DOUGLAS, 1979).

Os objetos são contraditórios. Não são bons, nem maus. Podem estar bons e podem estar maus. Tudo depende de como, gentilmente, nos compreendemos. Depende do momento, da atmosfera, do desejo, do fetiche, do quanto eles nos oprimem, deprimem ou nos trazem alegria, felicidade, poder e tantos outros sentimentos. O sentimento nos constitui humanos e enquanto humanos vemos embaçado, desfocado e difuso muitas vezes (KOPYTOFF, 2008), talvez por isto a relação da pessoa com o objeto seja tão profunda, o quanto o ambiente vivido nos faz confortáveis ou desconfortáveis enquanto moradores.

Sendo assim, caminhamos hoje, creio eu, para este estudo fenomenológico das coisas e suas relações, incluindo a nós, pessoas que somos artefatos com certeza, nos apresentando como tal, pois somos constituídos de tudo que experimentamos e vivemos.

Definitivamente, a nossa materialidade se constitui da memória, da narrativa, do corpo, dos gestos, além de tudo que tocamos, experienciamos, desta forma, como afirma Bergmann Filho (2016), “o estudo da cultura material pode ser mais amplamente definido como a investigação da relação entre pessoas e coisas, independentemente do tempo e espaço”, na eterna tentativa de acompanhar o movimento do indivíduo e suas coisas.

Portanto, a nossa materialidade é inspiradora. Nossa casa faz parte de nós, a casa nos apresenta. Nós somos nossa casa. Sim a arquitetura me define mesmo eu me redefinindo constantemente.

Referências

BERGMANN FILHO, Juarez. Diálogos Conceituais (Cap. 3, pp. 78-111) IN:BERGMANN FILHO, Juarez. Artífices, Artifícios e Artefatos: Narrativas e Trajetórias no Processo de Construção da Rabeca Brasileira. 2016. 255 f. Tese (Doutorado) – Curso de Doutorado em Design, Departamento de Pós-Graduação em Design, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2016. Cap. 3, pp. 78-111.

DOUGLAS, Mary; ISHERWOOD, Baron. O mundo dos bens: para uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004.

KOPYTOFF, Igor. A Biografia Cultural das Coisas: a mercantilização como processo. IN: APPADURAI, Arjun. A Vida Social das Coisas. As mercadorias sob uma perspectiva cultural. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense. 2008. pp. 89-121.

MCCRACKEN, Grant. Vestuário como Linguagem: uma lição objetiva nos estudos das propriedades expressivas da cultura material. Cultura e Consumo. Novas abordagens ao caráter simbólico dos bens e das atividades de consumo. Rio de Janeiro: MAUAD, 2003 (Coleção cultura e consumo – Coordenação Everardo Rocha). Pp 83-98.

MARX, Karl. A mercadoria. IN: ____. O Capital. Crítica à economia política: livro I. 18a Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. pp. 57-105.

MILLER, Daniel. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. p 21-65.

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